Sab, 26 de Abril de 2008 00:00
Recebemos e-mail do Sr. Sérgio Suplicy Góes onde são esclarecidos alguns detalhes da Ferrari 290/250TR que pertenceu ao piloto Aguinaldo Góes, o qual transcrevemos:
“Como filho mais velho do Aguinaldo de Góes Filho, eu gostaria de acrescentar alguns detalhes sobre a história da Ferrari 250 TR, que acaba no Camillo Christófaro.
Em 1961, meu pai comprou a Ferrari 250 TR do Jean Louis Lacerda Soares (Dono da concessionária Volkswagen, Marcas Famosas.
O carro tinha os seguintes detalhes:
Motor de 3.000 cc com 300 cv.
Cor amarela original, que nos 500 km de 1961, foi pintado um “bigode” preto na frente, com nº 81.
A direção era na direita (meu pai dizia que quando desgarrava entre a curva 1 e a 2, via a grama chegar perto).
O pedal do freio era na direita e o acelerador no meio, entre a embreagem e o freio. (imaginem como o cérebro tinha que pensar, com a inversão dos pedais).
Suspensão De Dion (que ele achava muito perigosa).
Não tinha cinto de segurança.
Não se usava macacão, era camiseta lacoste de manga curta.
A participação nos 500km de Interlagos do dia 07/09/1961 foi assim:
Antes da corrida ele procurou pneus para comprar e só achou 2 novos e 2 usados, mas correu assim mesmo, com os dois melhores na frente e os semi-novos atrás, devendo durar os 500Km.
Ele largou na 2ª fila com pista seca e quando começou a chover, a Ferrari atravessou de lado entre as curvas 1 e 2.
Ele fez a curva inteira de lado e quando apontou a tangente da curva 2 acelerou e conseguiu sair. Depois disso sua perna começou a tremer no acelerador, então diminuiu o trem de corrida, não mudou mais a marcha, ficou só em 4ª marcha, fazendo as 4 curvas do anel externo de Interlagos.
Todo mundo começou a ultrapassá-lo, até quando o ultimo colocado, que pilotava um carro bem inferior, passou por ele e o piloto olhou e deu risada.
Então meu pai ficou bravo, puxou uma 3ª marcha e começou a acelerar, passando um por um.
Parou nos Boxes para reabastecer e ninguém contou para ele que o piloto, Jaime Guerra, havia atropelado e matado o mecânico Victor Lossaco dentro dos Boxes.
A pista secou e ele chegou em 2º lugar.
Seu grande amigo Celso Lara Barberis, que correu juntamente com Emílio Zambello e Ruggero Peruzzo em dois carros, uma Maserati 450S de 4.450 cc. e outra Maserati 300S de 3000cc, obteve o 1º e 3º lugares respectivamente.
Após o reabastecimento, Celso Lara trocou de Maserati, saindo da 450S que ocupava a liderança e indo para a 300S que estava em terceiro, na tentativa de buscar Aguinaldo e sua Testa-Rossa, mas não deu e acabou ficando em 3º, com 2 voltas de atraso.
Em 20/05/1962, meu pai viajou para a fazenda em Ribeirão Preto e eu estava ao lado dele quando o telefone tocou e o Fernando Mafra Moreira , mais conhecido como “Rio Negro”, pediu a Ferrari emprestada para correr, visto que só tinham 2 carros inscritos na Prova Festival da ACESP e o mínimo para largar eram 3 carros.
Meu pai disse que não, ele insistiu, e então meu disse para o “Rio Negro”: "- Dê a largada, entre nos Boxes e deixe os dois correrem".
“Rio Negro” pediu se podia dar duas voltas, e meu pai disse gritando: "- Dá uma volta" e repetiu varias vezes “ - dá uma volta e deixa os dois correrem”.
Naquela época o telefone era aqueles de parede, que você falava no microfone, segurando a outra peça do fone no ouvido, e tinha aquela manivela do lado direito para dar linha.
Conclusão: o “Rio Negro” Largou, não entrou nos Boxes e talvez em função da posição do pedal do freio ser na direita e o acelerador no meio, ele tenha se confundido.
Quando entrou na curva 1 muito forte, o carro atravessou de lado e ele foi saindo, pegou a grama e como tinha uma plantação de eucaliptos entre a curva 1 e 2, bateu de lado em um eucalipto dividindo a Ferrari em dois, separando o o motor e o câmbio sem danificar as peças.
A metade da frente da Ferrari foi parar, segundo o Jean Balder em seu livro, a 150 metros para a frente e a traseira ficou no eucalipto junto com o corpo do “Rio Negro”.
Depois disso, meu pai chamou seu grande amigo Camillo Christófaro e disse: “Leva o que sobrou, fica para você de presente”.
Então o Camillo aproveitou a suspensão De Dion traseira e o tanque de gasolina, na Carreteira nº 18 e junto com um motor Corvette V8.
Em 27/03/1965, Camillo convidou Aguinaldo para correr os 1.600 Km de Interlagos, para ver como ficou a Carreteira e eles chegaram em 3º na geral e 1º na categoria TFL.
Camillo guardou o motor 12 cilindros, usando-o mais tarde no Fúria criado por Tony Bianco. O carro foi pintado de amarelo como o mesmo “bigode” preto na pintura, qual a qual meu pai tinha corrido dos 500 Km.
Depois disso, uma Ferrari de passeio fundiu o motor e Camillo vendeu o motor 12 cilindros da Testa-Rossa, para que o proprietário pudesse pelas ruas de São Paulo”.
Sérgio Suplicy Góes
São Paulo – 17 de abril de 2008.
NOTA: Sérgio Suplicy Góes é filho do grande piloto dos anos 50 e 60 Aguinaldo Góes.


