Qua, 24 de Setembro de 2008 00:00
O gaúcho radicado em Brasília Ênio Lourenço Garcia foi um dos maiores pilotos que a Capital brasileira conheceu. Seu conhecimento em mecânica foi um fator que, aliado à sua grande habilidade ao volante, permitiram que alcançasse grande êxito como piloto.
E esse conhecimento de mecânica levou-o a projetar alguns carros que receberam o nome de ELGAR (“E” de Ênio, “L” de Lourenço e “GAR” de Garcia).
O primeiro projeto (101) não passou do esboço. O segundo projeto (102) era um carro de Fórmula Vê. O chassi chegou a ser construído, recebeu a mecânica VW 1200 da época, passou por diversos testes, mas acabou não recebendo carroceria e com isso não participou de nenhuma prova automobilística.
O terceiro projeto (103) tinha mecânica do Simca nacional, com motor V-8. Tratava-se de um carro GT com motor dianteiro, mas igualmente não passou de projeto.
Depois que Ênio, como piloto conquistou uma série de bons resultados com um VW Sedan equipado com motor 1600, chegando a vencer provas como os 500 Km de Brasília, a prova Marcílio Dias, o Circuito de Anápolis, os 300 km de Goiânia, resolveu projetar um protótipo de competição equipado com essa mecânica.
Assim surgiu o Elgar 104 GT. Carro projetado a partir de um chassi muito simples tipo “plataforma”, com carroceria de fibra de vidro e mecânica VW (motor refrigerado a ar, câmbio do VW com kit P3 Puma, suspensão e freio da Kombi).
Dois chassis foram construídos: um para a dupla Ênio Garcia/Toninho Martins e um segundo carro encomendado por Paulo Guaraciaba.
Quem construiu o chassi a partir dos desenhos e orientação do Ênio foi Waldir Lomazzi, competente mecânico e ótimo piloto nas horas vagas.
Waldir acabou fazendo uma base em arame para a construção da carroceria, que em fibra de vidro foi construída numa fábrica de geladeiras localizada na cidade satélite do Gama no Distrito Federal.
Ela foi inspirada na Ferrari Dino 308 com partes do Porsche 904 e ficou muito atraente, despertando o interesse dos aficionados pelo esporte automobilístico.
O carro ficou pronto no início de 1969 e em condições de estrear nos Mil Km de Brasília daquele ano.
Com efeito, os dois carros participaram da prova: o número 12 sob a condução de Ênio Garcia/Toninho Martins e o número 11 com Paulo Guaraciaba/Waldir Lomazzi.
O carro de Paulo Guaraciaba abandonou ainda no início da prova com problemas na suspensão, típico de um estreante, enquanto que o de Ênio Garcia, apesar de também enfrentar problemas, acabou terminando a prova na 13ª posição, demonstrando bom desempenho quando livre desses problemas.
Depois dessa prova Paulo Guaraciaba participou de duas corridas, abandonando em ambas. Nas “Cem Milhas de Brasília” seu carro enfrentou uma pane elétrica e nas “3 Horas da Guanabara”, prova em que estrearam a Alfa Romeo P33 de José Carlos Pace e a Lola T70 dos irmãos Di Paoli, teve um pivô da suspensão traseira quebrado. Esse problema foi solucionado, com a modificação do sistema de ligação do triângulo da suspensão com o chassi do carro.
O carro de Ênio Garcia retornou às pistas na trágica prova disputada em Anápolis em 17 de julho de 1969. O circuito não oferecia a menor segurança ao público, com as pessoas formando verdadeiros “guard-rails” humanos ao longo do traçado que intercalava trechos de asfalto com trechos de paralelepípedos. Esse cenário foi palco de diversos acidentes, sendo o mais dramático o que aconteceu com o Elgar. Ênio vinha muito rápido quando foi atrapalhado por um competidor e acabou acertando a multidão que cercava a pista. Saldo da tragédia: dois mortos e treze de feridos.
Depois das “3 Horas da Guanabara” o Elgar chassi 02 foi vendido por Paulo Guaraciaba para Carlito Lima, um piloto novato de Brasília.
Mesmo transtornada a equipe dos Elgar participou dos “500 Km de Salvador”, prova disputada em circuito de rua na Avenida Centenário e válida pelo campeonato brasileiro.
Nessa prova os pilotos eram Ênio Garcia/Toninho Martins e Carlito Lima/Zeca Castro.
O carro de Carlito apresentou problemas mecânicos ainda na primeira fase da prova e se retirou enquanto que Ênio/Toninho terminavam a prova na 10ª posição, mesmo tendo perdido muito tempo nos boxes reparando problemas elétricos.
Depois do acidente de Anápolis, Ênio Garcia já não se sentia tão à vontade para continuar pilotando e iniciava a sua retirada das pistas.
Com isso, Toninho Martins participou sozinho, com o Elgar nº 12 das “Cem Milhas de Belo Horizonte”, prova disputada no circuito improvisado, construído no estacionamento do Estádio Mineirão. Ele acabou terminando a prova na 5ª posição, batido apenas pelos Opalas de Toninho da Matta e Ronaldo Augusto, pela Alfa GTA de Martius Jarjour e pelo protótipo Camber de Alex Dias Ribeiro. O segundo Elgar conduzido por Waldir Lomazzi abandonou a prova.
Para os “500 Km de Brasília”, que foi disputado no dia 7 de setembro, à noite, nas ruas da Capital, Ênio Garcia não se sentiu em condições de competir e o carro foi entregue à dupla Toninho Martins/Luiz Cláudio Nasser, e depois de pouco mais de 5 horas de corrida, recebeu a bandeirada de chegada na primeira colocação.
Ênio Garcia voltou a pilotar o Elgar no GP do Nordeste, prova válida para o campeonato brasileiro, disputada no autódromo de Fortaleza no Ceará. Juntamente com Toninho Martins, Ênio terminou a prova na 9ª colocação.
Para as “200 Milhas de Brasília”, estavam inscritos os carros de Toninho Martins (nº12) e de Carlito Lima (nº 5), porém pouco antes da largada o 12 teve o motor quebrado e não pode alinhar. Por esse motivo Toninho acabou formando dupla com Carlito, terminando a prova na quarta posição.
Para os “Mil Km da Guanabara”, prova final do campeonato brasileiro, Toninho voltava a formar dupla com Ênio no carro nº12, enquanto que o nº 5 estava entregue à dupla Carlito Lima/Waldir Lomazzi. A segunda dupla acabou tendo problemas, Waldir com forte crise renal e Carlito dizendo-se sem condições psicológicas, e foi substituída por Luiz Cláudio Nasser e Ricardo Penta. Demonstrando que o carro estava cada vez melhor acertado, a dupla Ênio/Toninho terminou a prova na 4ª posição. Luiz Cláudio/Penta terminaram na 13ª colocação.
O ano automobilístico de 1970 começou com a trágica morte de Marcelo Carneiro quando seu Puma se chocou contra um caminhão de feira, quando treinava para os “500 de Belo Horizonte”. Carlito Lima e Waldir Lomazzi que estavam inscritos para correr no Elgar nº 5 acabaram desistindo e foram mais uma vez substituídos por Luiz Cláudio Nasser e Ricardo Penta que andaram bem com o Elgar até serem obrigados a abandonar com problemas mecânicos.
O carro correu então nos 1500 Km de Interlagos sob a condução de Carlito Lima e Toninho Martins terminando a corrida na 28ª colocação.
Nos “Mil Km de Brasília” os dois carros estavam presentes: o nº 12 com Ênio Garcia/Luiz Cláudio Nasser e o nº 5 com Carlito Lima/José Julião Netto/Márcio Hildebrando.
Com a prova sendo disputada debaixo de forte chuva, o carro nº 5 se acidentou logo no início da prova e passou a maior parte do tempo sendo reparado nos boxes, com isso completou apenas 66 voltas. O carro 12, enquanto foi possível teve um bom desempenho, mas enfrentou um problema com o limpador de pára-brisa e acabou abandonando.
Essa foi a despedida de Ênio Garcia da pistas e o carro passou a ser conduzido pelo Toninho
O Elgar chassi nº 2 foi então vendido a Carlos Alberto Brás, o Carlão que o pilotou em Goiânia e nas “Mil Milhas de 1970” formando dupla com Edgar de Melo Filho, abandonando em ambas as ocasiões.
No início de 1971 o Elgar chassi nº 02 foi vendido ao trio Luiz Cláudio Nasser/Luiz Antônio Barata/José Carlos Catanhede. Nessa época o carro foi exposto no show de Roberto Carlos realizado na concha acústica em Brasília.
Em 1971 o carro chassi nº 1 correu em Goiânia e em Anápolis com a dupla Toninho Martins/Carlão e abandonou nas duas provas, enquanto que o chassi nº2 foi 4º colocado, com Luiz Barata em Goiânia e sexto em Belo Horizonte, mas abandonou nas provas de Anápolis e Goiânia com Catanhede ao volante.
Em 1972 o chassi nº 1 foi destruído em incêndio ocorrido em uma oficina na cidade satélite de Taguatinga, enquanto que o chassi nº 2 era vendido para o “Jujuba”, participando das suas duas últimas corridas nos dias 22 e 23 de abril em prova comemorativa do aniversário de Brasília disputada no circuito do estacionamento do estádio Pelezão, em Brasília. Os pilotos foram Luiz Gladstone e Haroldo Meira (pai do piloto da Fórmula Indy Vitor Meira), que ficaram em 5º lugar na prova do dia 22 e em 7º na prova do dia 23.
Em seguida esse carro foi vendido ao Ricardo Penta que o desmontou para transformá-lo no Penta Volks e acabou sendo destruído.
Assim se perderam os dois carros construídos por Ênio Garcia.
AS CORRIDAS DO ELGAR
| SEQ | DATA | PROVA | CIRCUITO | Nº | PILOTOS | CHAS | CAT | COL |
| 1 | 20/04/1969 | Mil Km de Brasília | Eixo Rodoviário – DF | 12 | Ênio Garcia/Toninho Martins | 1 | PT | 13º/ 7º |
| 11 | Paulo Guaraciaba/Waldir Lomazzi | 2 | PT | AB | ||||
| 2 | 22/06/1969 | Cem Milhas de Brasília | Asa Norte –DF | 11 | Paulo Guaraciaba | 2 | PT | AB |
| 3 | 29/06/1969 | 3 Horas da Guanabara | Jacarepaguá – RJ | 11 | Paulo Guaraciaba | 2 | PT | AB |
| 4 | 27/07/1969 | Circuito de Anápolis | Anápolis – GO | 12 | Ênio Garcia | 1 | PT | AB |
| 5 | 10/08/1969 | 500 Km de Salvador | Av. Centenário – BA | 12 | Ênio Garcia/Toninho Martins | 1 | PT | 10º/ 5º |
| 5 | Carlito Lima/Zeca Castro | 2 | PT | AB | ||||
| 6 | 31/08/1969 | Cem Milhas da Independência | Mineirão - MG | 12 | Toninho Martins | 1 | PT | 5º/ 2º |
| 7 | 07/09/1969 | 500 Km de Brasília | Eixo Monumental - DF | 12 | Toninho Martins/Luiz Cláudio Nasser | 1 | PT | 1º 1º |
| 8 | 19/10/1969 | GP do Nordeste | Autódromo de Fortaleza - CE | 12 | Ênio Garcia/Toninho Martins | 1 | PT | 9º/ 7º |
| 9 | 07/12/1969 | 200 Milhas de Brasília | Eixo Rodoviário – DF | 5 | Toninho Martins/Carlito Lima | 2 | PT | 4º/ 2º |
| 10 | 13/12/1969 | Mil Km da Guanabara | Jacarepaguá - RJ | 12 | Ênio Garcia/Toninho Martins | 1 | PT | 5º/ 3º |
| 5 | Luiz Cláudio Nasser/Ricardo Penta | 2 | PT | AB | ||||
| 11 | 18/01/1970 | 500 Km de Belo Horizonte | Mineirão - MG | 5 | Luiz Cláudio Nasser/Ricardo Penta | 2 | PT | AB |
| 12 | 08/03/1970 | 1.500 Km de Interlagos | Interlagos - SP | 5 | Toninho Martins/Carlito Lima | 2 | PT | 29º/16º |
| 13 | 19/04/1970 | Mil Km de Brasília | Eixo Monumental - DF | 12 | Ênio Garcia/Luiz Cláudio Nasser | 1 | PT | 33º/ 21º |
| 5 | Carlito Lima/José Julião/Márcio Hildebrand | 2 | PT | 44º/ 31º | ||||
| 14 | 11/10/1970 | Cem Km de Goiânia | Av. Chateaubriand – GO | 43 | Carlos Alberto Brás | 2 | PT | AB |
| 15 | 22/11/1970 | Mil Milhas Brasileiras | Interlagos - SP | 42 | Carlos Alberto Brás/Edgar de Melo Fº | 2 | PT | AB |
| 16 | 25/07/1971 | Policia Militar de Goiás | Av. Chateaubriand - GO | 19 | Luiz Barata | 2 | PT | 4º/ 4º |
| 12 | Toninho Martins/Carlos Alberto Brás | 1 | PT | AB | ||||
| 17 | 08/08/1971 | Circuito de Anápolis | Anápolis - GO | 12 | Toninho Martins/Carlos Alberto Brás | 1 | PT | AB |
| 19 | José Catanhede | 2 | PT | AB | ||||
| 18 | 07/09/1971 | Cem Milhas de Independência | Mineirão - MG | 19 | Luiz Barata | 2 | PT | 6º/ 6º |
| 19 | 17/10/1971 | Aniversário de Goiânia | Av. Chateaubriand - GO | 19 | José Carlos Catanhede | 2 | PT | AB |
| 20 | 22/04/1972 | Aniversário de Brasília | Pelezão – DF | 13 | Luiz Glastone/Haroldo Meira | 2 | PT | 5º/ 5º |
| 21 | 23/04/1972 | Aniversário de Brasília | Pelezão – DF | 13 | Luiz Glastone/Haroldo Meira | 2 | PT | 7º/ 7º |


