Dom, 11 de Outubro de 2009 17:18
A TEMPORADA DE 1937 III
6 – GP CIDADE DO RIO DE JANEIRO - GÁVEA

1937 – GP CIDADE DO RIO DE JANEIRO - GÁVEA
Depois do retumbante sucesso da edição de 1936, os organizadores do GP Cidade do Rio de Janeiro pretendiam dar à competição o “status” de Grand Prix e para tanto, precisavam atender a recomendação da FIA para a organização desse tipo de prova, providenciando o asfaltamento do percurso da subida da Gávea.
Obtida a promessa das autoridades municipais de que a obra seria realizada antes da data prevista para o evento, os dirigentes do Automóvel Clube do Brasil arregaçaram as mangas e partiram em busca de trazer para o evento os melhores carros e pilotos que disputavam essas provas na Europa.
Paralelamente, estava sendo realizado um concurso, em parceria do ACB e o jornal O Globo, para a escolha do piloto brasileiro mais popular, que receberia, como prêmio um carro de Grand Prix e, com isso, permitir que um brasileiro tivesse condições de lutar de igual para igual com os estrangeiros.
O ACB pretendia que, pelo menos um dos carros alemães, que vinham se destacando nos Grandes Prêmios Europeus, viesse participar da prova da Gávea e não envidou esforços para a vinda de Hans Stuck, piloto que já havia participado e vencido a Subida Rio – Petrópolis em 1932.
As negociações prosseguiram através da Auto Union do Brasil e, como o ACB aceitou o orçamento de 47 mil contos de réis, a vinda de piloto e carro alemães estava assegurada.
Proposta semelhante foi endereçada à equipe Ferrari que afirmando a princípio que viria com dois carros, mas alegando que a despesa seria maior, recusou a proposta, que prontamente foi coberta pelo Comendador Sabbado D’Ângelo, possibilitando com isso, a vinda da equipe para disputar o Grande Prêmio.
Da argentina foram confirmadas as presenças de dois vencedores da Gávea: Coppoli e Carú, além de Carlos Arzani e Raul Riganti.
Da França se inscreveram Jorge Marcedady e Jean Gilbert-Foury e de Portugal Vasco Sameiro e José Almeida Araújo.
Manuel de Teffé acabou vencendo o concurso de popularidade, batendo Nascimento Júnior por uma margem de 30.000 votos. Teffé pretendia que o ACB importasse uma Alfa Romeo do ano anterior, mas o clube considerou o preço muito elevado e acabou comprando na Argentina, do piloto Carlos Arzani, uma das Alfas que haviam corrido na Gávea em 1936, que era um modelo 1934 do tipo 2900 A. Teffé ficou furioso e, apesar dos seus mecânicos executarem uma completa revisão do carro, este acabou não sendo aprovado. Teffé deu várias declarações contrárias, fazendo com que o ACB o suspendesse acarretando com isso a proibição aa sua participação na prova. O carro acabou sendo entregue a Nascimento Júnior, o segundo colocado do concurso, que participaria da prova.
Os jornais da época especulavam que a equipe Ferrari traria ao Brasil, dessa vez, seus dois principais pilotos, o campeoníssimo Tazio Nuvolari e Antônio Brívio, mas os que torciam por ver Nuvolari no Brasil acabaram tendo que se contentar com a sua substituição por Carlo Pintacuda, que havia corrido por aqui no ano anterior, vencendo o GP Cidade de São Paulo.
Os carros seriam uma Alfa Romeo 12C36, de 12 cilindros para Brívio e uma 8C35, de 8 cilindros para Pintacuda. Hans Stuck confirmou a sua participação com um Auto Union Tipo C, de 6.000 cc e cerca de 600 HP, sendo o franco favorito à vitória. As Alfa Romeo com 370 e 330 HP respectivamente, embora mais adaptáveis ao sinuoso circuito da Gávea, pouco poderiam fazer, em condições normais contra a potência do Auto Union.
Assim, como no ano anterior, a classificação para a formação do grid de largada seria feita em três tentativas, com a melhor valendo como tempo, devendo ser inferior a 10 minutos.Hans Stuck, demonstrando o seu favoritismo, estabeleceu o melhor tempo com 7m29s0, colocando mais de um minuto no recorde da pista, a uma média de 87,282 km/h. O segundo lugar ficou com Brívio (7m37s1), o terceiro com Pintacuda (7m40s3) e, o quarto, fechando a primeira fila com Carlos Arzani (Alfa Romeo 8C35) com o tempo de 8m04s0.
Na segunda fila, com o quinto tempo, estava Nascimento Júnior, com a Alfa Romeo 2900 que fora recusada por Teffé, com o tempo de 8m04s4. Ao seu lado estava o português Vasco Sameiro (Alfa Romeo 8C 2300) com o tempo de 8m08s4, o argentino Ricardo Carú (Alfa Romeo 2900) com 8m12s0 e Benedicto Lopes (Alfa Romeo 8C 2300) com 8m21s4.
A movimentação de pessoal para assistir a prova começou no sábado, véspera da data marcada para sua realização. Os ingressos para as arquibancadas armadas ao redor do circuito foram rapidamente esgotados e isso motivou diversos anúncios oferecendo lugares nas sacadas e terraços dos prédios próximos.
O domingo amanheceu nublado, com o comparecimento de um público calculado pelas autoridades em 300.000 pessoas.
No momento da largada, uma chuva fina e constante caía sobre o circuito e essa pista molhada fez com que o carro de Stuck patinasse na largada entregando a liderança para Pintacuda, que completou a primeira volta com 7,6 segundos de vantagem para Stuck que tinha Brívio, Arzani e Nascimento Júnior nas posições seguintes. Chico Landi que não tinha participado dos treinos e, por isso tinha largado na última posição, féz uma volta espetacular e já ocupava a 11ª posição, ganhando nada mais que 13 em apenas uma volta.
Levando vantagem pela maior dirigibilidade da Alfa Romeo em pista molhada em relação ao Auto Union e do seu grande conhecimento da pista, Pintacuda completava a 5ª volta na liderança, com 17 segundos de vantagem sobre o carro alemão. Em terceiro permanecia Brívio, seguido por Arzani e Vasco Sameiro. Na volta seguinte a vantagem de Pintacuda subira para 19,6 segundos, mas a partir da 9ª volta a chuva tinha parado e a pista secava rapidamente e, com isso, Stuck reduzia a diferença para 15 segundos. Brívio era o terceiro, Arzani tinha visitado o boxe e, com isso Sameiro ocupava a quarta posição, com Benedicto Lopes em quinto.
Na 12ª volta livre da chuva, Stuck se utilizou da maior potência do seu carro para assumir a liderança e rapidamente ir se distanciando de Pintacuda.
Na 13ª volta o argentino Ricardo Carú, que vinha na 8ª posição, derrapou e capotou, abandonando a prova, enquanto que Stuck completava a 15ª volta na liderança, com uma vantagem de 6,1 segundos para Pintacuda, e tudo indicava que o piloto da Auto Union não teria dificuldade para vencer a prova.
Na volta seguinte, Stuck recorreu aos boxes para efetuar o reabastecimento do seu carro, que teve dificuldades para voltar a funcionar, o que permitiu que Pintacuda reassumisse a liderança.
Ao ser completada a 16ª volta, a vantagem de Pintacuda era de 46 segundos para Stuck, aparecendo Brívio em terceiro, quase uma volta atrás.
A partir de então, Brívio passou a utilizar toda a potência do seu carro na tentativa de recuperar a liderança e, na 19ª volta, registrou a melhor volta da prova, até então, com o tempo de 7m40s5.
Na 20ª volta, faltando apenas 5, a vantagem de Pintacuda era de 43,1 segundos, com Stuck se esforçando ao máximo para alcançar o italiano.
Ao ser completada a penúltima volta, Pintacuda tinha 12 segundos de vantagem e, além disso, o az italiano tinha que poupar combustível para que conseguisse cruzar a linha de chegada. Stuck fez de tudo, completou a última volta com o tempo de 7m39s5, recorde da volta, mas não foi o bastante para alcançar Pintacuda, que cruzou a linha de chegada 7,3 segundos à frente.
Foi o mais sensacional final do GP Cidade do Rio de Janeiro, que assim atingia o “status” de Grande Prêmio, o que correspondia à Fórmula 1 da época.
RESULTADO FINAL
| PROVA | V GP Cidade do Rio de Janeiro |
| LOCAL | Circuito da Gávea – Rio de Janeiro – RJ |
| DATA | 06/06/1937 |
| PERCURSO | 25 voltas de 11,160 km = 279,000 km |
| TEMPO TOTAL | 3h22m06s5 |
| MÉDIA HORÁRIA | 82,827 km/h |
| MELHOR VOLTA | Hans Stuck (Auto Union C) – 7m39s5 – 87,434 km/h |
| POLE-POSITION | Hans Stuck (Auto Union C) – 7m29s0 – 89,479 km/h |
| PARTICIPANTES | 24 carros |
| COL | PILOTO | OR | Nº | CARRO | CC | V | TEMPO | L |
| 1º | Carlo Pintacuda | ITA | 40 | Alfa Romeo 8C-35 | 3.822 | 25 | 3h22m06s5 | 3 |
| 2º | Hans Stuck | AUT | 4 | Auto Union C | 6.005 | 25 | 3h22m13s8 | 1 |
| 3º | Antônio Brívio | ITA | 34 | Alfa Romeo 12C36 | 4.064 | 25 | 3h29m08s1 | 2 |
| 4º | Vasco Sameiro | POR | 38 | Alfa Romeo 8C 2300 | 2.336 | 25 | 3h35m00s8 | 6 |
| 5º | Carlos Arzani | ARG | 10 | Alfa Romeo 8C-35 | 3.822 | 25 | 3h35m43s2 | 4 |
| 6º | Benedicto Lopes | RJ | 42 | Alfa Romeo 8C 2300 | 2.336 | 25 | 3h39m10s2 | 8 |
| 7º | Nascimento Júnior | SP | 14 | Alfa Romeo 2900 A | 2.905 | 25 | 3h42m02s8 | 5 |
| 8º | Rubem Abrunhosa | RJ | 22 | Alfa Romeo 8C 2300 | 2.336 | 25 | 10 | |
| 9º | Norberto Jung | RS | 36 | Ford V-8 Adaptado | 3.622 | 24 | 11 | |
| 10º | Almeida Araújo | POR | 50 | Alfa Romeo 2900 | 2.905 | 23 | 14 | |
| 11º | Santos Soeiro | RJ | 44 | Ford V-8 Adaptado | 3.622 | 18 | 12 | |
| 12º | Jorge Marcedady | FRA | 12 | Bugatti T51 | 2.262 | 18 | 15 | |
| 13º | Domingos Lopes | RJ | 28 | Bugatti T37A | 1.496 | 18 | 17 | |
| 14º | Carlo Cazzabini | ITA | 2 | Alfa Romeo 2900 B | 2.905 | 15 | 9 | |
| 15º | Ricardo Carú | ARG | 18 | Alfa Romeo 2900 A | 2.905 | 13 | 7 | |
| 16º | Júlio de Moraes | RJ | 30 | Wanderer Adaptado | 2.632 | 11 | 19 | |
| 17º | Marques Porto | RJ | 8 | Bugatti T37A | 1.496 | 9 | 22 | |
| 18º | Vittorio Coppoli | ARG | 54 | Bugatti T51 | 2.262 | 8 | 21 | |
| 19º | José Santiago | RJ | 46 | Ford V-8 Adaptado | 3.622 | 7 | 16 | |
| 20º | Chico Landi | SP | 6 | Fiat GP | 1.484 | 6 | 24 | |
| 21º | Raul Riganti | ARG | 26 | Bugatti Hudson | 3.455 | 5 | 23 | |
| 22º | João Santo Mauro | SP | 56 | Alfa Romeo 1750 | 1.752 | 5 | 20 | |
| 23º | Jean-Gilbert Foury | FRA | 48 | Bugatti T51 | 2.262 | 1 | 13 | |
| 24º | Querino Landi | SP | 20 | Bugatti T37A | 1.496 | 0 | 18 |
LEGENDA: OR = Origem / V = Voltas / L = Posição de Largada


